A tinta ao tocar papel adquire um novo sabor, um novo cheiro, e
esta que está por agora corrompida pelos sentimentos do escritor, deixa manchas
de mentiras por onde passa, e cada traço errante que pelo branco desliza
imortaliza os pensamentos de quem as traça, torna realidade seus sonhos e o
cega de sua ignorância. O sangue negro que flui pela ponta da gélida caneta,
traz consigo a pulsação de um coração que, não importando o restante do mundo
-que naquele momento para de girar-, acabará por modificar alguém, seja eu ou
você, seja ontem, hoje, amanhã ou depois.
A cada ponto brutal ao final de uma sentença, uma ideia se
imortaliza, a cada parágrafo uma filosofia é lançada, e ao final do texto tudo
o que sobra é a hipocrisia de uma alma solitária que se perde na fantasia que
se torna real em sua insanidade. O mundo real se distorce, se revira em seu
eixo e é tomado pela escuridão, o irreal o substitui, e o mundo escondido nas
trevas corrompe a mente como um veneno, um veneno não menos toxico do que o que
tomou seu lugar.
Há de haver um antídoto para tal ignorância, assim como há
sempre um soro para a picada de uma serpente. Mas para encontrá-lo seria
preciso abrir mão de nosso manto de hipocrisia, que nos aquece da própria
solidão e nos protege do mundo que guardamos nos confins de nossa consciência.
Todos queremos nos salvar da picada da serpente, mas há algum de nós que queira
o antídoto de nós mesmos? A tinta continuara a escorrer sem direção, até que
alguém pense em mostrá-la o caminho.
13/06/2010




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